sexta-feira, 8 de agosto de 2014

DOIDOS DO XADREZ

POSTEI ESTE EM TEXTOS DE AMOR E HUMOR, COMO NORMALMENTE FAÇO POSTO AQUI TAMBÉM, POIS É OUTRO PÚBLICO.

Meu Universo


Muita gente diz que o jogo de xadrez agrupa ou transforma em malucos os que o praticam. Eu que faço parte da panelinha, naturalmente discordo, mas algumas estorinhas, passagens rápidas, ou personagens que não têm muito a ver com maluquices, podem ser registradas. Como quase todos os que estão no metiê viveram ou possuem alguma coisa incomum, fica difícil imaginar por onde começar, e pra não dizer que tal pelo início, vamos começar, como Machado de Assis em Brás Cubas, pelo fim – a bomba atômica.
Dois dos mais bizarros personagens, (um está foragido e o outro bem ativo entre nós) foram jogar em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro. Lá pela terceira rodada não tinham feito ainda nenhum ponto e o foragido, forte jogador, tava puto da vida. Convidou o outro para dar uma volta pelas redondezas, conhecer a cidade. Muito bem, montaram na moto e andaram uns 30km no meio do nada até chegar a uma enorme construção, muito vigiada, onde o condutor pediu ao carona pra descer e pegar informações do que era aquela grandiosidade. Enquanto J. perguntava, Daniel se mandou deixando o companheiro dentro da usina atômica em plena era do vaga-lume. Era este o nome da aberração, na época de testes, e hoje, pelo que me consta, apagou de vez.
Um outro, e este definitivamente eu não posso falar ou me escapa o nome, em um período meio depressivo/paranóico, inventou de brigar com um caminhão. Ia ao banco ou supermercado e lá estava o bicho bem parado no meio do caminho. Começou a fugir, dobrar na esquina, fazer o caminho mais longo, mas ainda assim a nóia fazia ele ver o caminhão. Rogou-lhe uma praga e o monstrengo foi roubado, mas parece que o proprietário tinha seguro porque comprou um outro, só que bem menor, e nosso personagem tá até hoje implicando com o toco de caminhão (no Ceará é cafuringa) e rogando mais praga, já que a principal só pegou pela metade.
Agora uma que vale pra dois, um de cada lado e no meio... um tabuleiro, é claro. Os até então amigos possuem mais ou menos o mesmo nível de jogo, mas um estava com uma boa vantagem material e o outro, vendo-se perdido, mas possuindo uma grande visão tática, procura inventar e apronta mate indefensável em dois lances. Nosso ex-vencedor, inconformado, passa bastante tempo procurando uma saída, e o outro, brabo com a demora, abandona a partida. Dizem que quem pagou pelo desaforo foram a geladeira, que teve um copo amassado contra si, e a dona da casa que, paciente, foi juntar os cacos.
Esta eu já contei, mas como o contexto é outro, vou me repetir. Um quase-como-eu, cego (de verdade), jogava um torneio de alto nível e tava indo bem, ganhava um pontinho aqui, meio ali, ficou empolgado, tomou umas biritas e foi jogar a última do dia. Irreconhecível, perdeu várias peças e ao abandonar a partida comentou: eu não vi nada! Realmente, nem sentiu (que tava bêbado).
Temos vários filósofos, tantos que não dá para falar de todos, então citemos uns dois: o epicurista Dr. Tarcísio, ou como diz o Eduardo, o Tarcisião, fazendo jus ao princípio de sua filosofia, comia, bebia, fumava e fazia mais algumas estripulias sem muitas limitações. Em dia inspirado, jogando com um desses fortes e jovens jogadores que surgiram ultimamente, aplica-lhe uma bela sova. O menino perdeu literalmente o caminho de casa, veio comigo e não achando como justificar a derrota saiu-se com essa: eu não sei como pode, um cara que é médico, bebe, fuma, faz o que ele faz. E eu calado pensando: exagera até em jogar bem o xadrez.
Um outro, sofista, tem uma pérola de quatro letras como máxima: se é, é. Sábio, muito sábio. Eu que freqüentava bastante a sua casa e como sou do ramo, um dia levei lá um cego. O cara não via com os olhos, mas com os ouvidos... foi só o fulano começar a conversar ele sapecou-lhe um belo apelido – xarope – depois me explicou o porquê: o troço é doce mas muito enjoado, serve pra enganar criança ou pra quem tá quase surdo, de gripe. Se é, é.
E aquela do André que foi arbitrar um torneio em Guarapari e à noite foi conosco a uma pizzaria tipo rodízio. Como a despesa dele era por conta da organização, pediu o cardápio mais caro, que dava direito a comer 99 sabores diferentes. Ele não perdeu tempo, disse que ia experimentar todos, mandou ver, comeu, comeu, não sei onde coube tanta comida, mas o que sei de fato é que o restaurante faliu e até hoje o prédio está entregue às moscas.
Um da turma mais antiga diz que não é doido, mas bate na mãe, e como eu não gosto de quem bate na mãe, nem vou comentar. Outro foi comigo visitar Sérgio Nasser, que estava internado. Serjão, inteligente como era, manda-o sentar-se na cama e em pouco tempo chega a enfermeira com uma baita injeção, vai aplicar em Benigno que já está deitado, e este diz que não é ele o doente e a enfermeira retruca: é, meu amigo, aqui todo mundo diz isso. Detalhe: a clínica, óbvio, era psiquiátrica. Na mesma clínica, depois que saiu, Serjão inventou (?) que tinha um bode e o mesmo quis comer suas calças. Disse que a enfermeira deu a ele um porrete pra se defender do enorme e fedido caprino e aí ele desatinou de vez: um bode dentro da clínica e a enfermeira dá um pau ao interno. É, ele deve ter mesmo inventado. Saudades, amigo, desafie Capablanca, Lasker e Alekhine, reze uma boa oração para todos os santos, e bata nos três monstros sagrados.
Tem também o velhinho que se recusou a jogar com as peças vermelhas, tem o filósofo pericliano/ornitológico, tem aquela artista que fez uma bela apresentação em Pinheiros, tem aqueloutro e mais um outro. São tantos que talvez renda mais um texto (duro de ler II) e, pra terminar, como aqui não tem estória de doido, resta dizer que o caderno que contém estas anotações é escrito de trás pra frente, só não me ocorre agora o motivo.

Setembro de 2007.
Colaboração das lembranças de Ana Paula.

domingo, 13 de julho de 2014

SAUDADES

O BOM, PARA QUEM NÃO TRABALHA MAIS, COMO EU, É QUE A SEGUNDA JÁ NÃO É TÃO CHATA, FICA IGUAL AO DOMINGO. ENTÃO EM HOMENAGEM AO DOMINGO/SEGUNDA E AO NÃO TRABALHAR VOU RECORDAR DO TEMPO QUE EU FAZIA ALGUMA COISA.


PROFISSÕES


“O meu nome é Severino, não tenho outro de pia. Como há muitos Severinos, que é santo de romaria, deram então de me chamar Severino de Maria como há muitos Severinos com mães chamadas Maria, fiquei sendo o da Maria do finado Zacarias”. João Cabral de Melo Neto.

Por ter nascido muito pobre logo cedo tive que abraçar algumas profissões e muitas delas não foram das melhores.
Minha mãe contava que antes dos cinco anos eu era intermediário de compra e venda. Comprava fiado na esquina e depois perturbava para me darem o dinheiro para eu pagar. Como as recordações não são minhas não sei se já cobrava comissão.
A primeira de que me lembro foi a de vendedor de água. Até que deveria ser um bom negócio pois era no sertão nordestino em época de longa seca. Tinha uns pequenos problemas como a distância, uns dois quilômetros; a água, que de tão barrenta parecia lama; o meio de transporte, lombo de burro, (o que vos fala); e o pior, os sedentos eram também famintos, e nem sempre tinham meia pataca para me pagar. Acrescente-se a minha idade, na época: uns sete, oito anos, no máximo.
Ainda no semi-árido e neste mesmo período de seca, fui mineiro, catava umas pedrinhas escuras e brilhosas que depois fui informado que poderia ser rutila. A encrenca era que a tal pedrinha aparecia muito pouco e somente no período mais quente, talvez por se acentuar o brilho.
Ainda no sertão mas já em um outro período, lembro de um tempo em que fui tropeiro de burro, conduzindo terra para as barragens de açude. Não era uma profissão ruim exceto pelo pagamento que era feito com um tal de sunguelo, que depois era trocado por feijão furado e rapadura. Em seguida fui apanhador de feijão, milho ou algodão e este último demorava bastante para juntar um quilo, que era remunerado com uns dez centavos, talvez menos. Molhar sairia mais caro, pela falta d’água, e se colocasse areia ou pedra só passava uma vez, depois perdia o emprego. Deste tempo lembro ainda que era tão quente que a gente ia de madrugada para o roçado e voltava umas nove ou dez horas da manhã, quando já não conseguia permanecer no sol. A água que se bebia durante o trabalho era tirada da melancia verde e não matava a sede pois era também muito quente.
Até aí eu não frequentara a escola regular, que só iniciei aos doze anos, já em Fortaleza, mas aprendera a ler.
Na capitá fui carregador de feira, vendedor de bala, de banana e até de tapioca, aqui no Sul conhecida como beiju. Como vendia muito pouco não esquentava lugar. Uma venda que durou um pouco mais foi a de pão, e nesta o horário era mais ou menos o mesmo do roçado, da madrugada até as nove, mas a diferença é que agora eu já ganhava um trocado até bom. Acabou porque meu irmão, que era o mestre padeiro, sumiu pras bandas do Piauí e levou o dinheiro de pagar a padaria. Bom também nesta profissão é que eu não precisaria pagar academia pois andava de oito a dez km com o cesto nas costas, cheio ou vazio. Antes dessa, veio uma outra também interessante pelo inusitado: carregador e batedor de caixão de defunto, e defunto porco (porco mesmo). Explico: Eu era empregado mirim do matador de porco e depois de vender a carne ele saía para vender o sarapatel e como o moleque, apesar de bem forte, não queria levar o peso, lá ia eu com uns quinze quilos na cabeça, na frente dele, batendo no caixão. Pleco, pleco, pleco. Cada meio quilo vendido era como tomar um Dorflex.
E o miserável logo atrás, aos berros: buiiiiiií de porco toucim e banha! O buí era a forma mais fácil de ele conseguir falar sarrabulho, como é conhecido lá o conjunto de miúdos do bicho sujo. Um outro irmão meu (tínhamos uma boa safra) certa vez foi preparar um pouco aqui em casa e não lavou direito. Como reclamamos, ele argumentou: o porco era limpo! Então tá bom.
Fui vendedor em duas mercearias, uma quebrou e na outra o proprietário não me pagou nada, certamente achou que eu roubava, mas o que eu catava mesmo era uns pedacinhos de queijo, que comia escondido. Foi um pagamento melhor que dinheiro. Por linhas tortas, ele foi justo.
Arranjei um emprego público mas em oito semanas acabou meu mandato, ou melhor, do político, e eu, bem, eu como já estava acostumado, fui pra rua. Ligeirinho no serviço público.
Fui trabalhar em uma fábrica de móveis e de enrolar os outros. Em cada três vendas o sujeito deixava uma sem entregar ou demorava pelo menos um ano, já tendo recebido a metade ou mais do valor. Ele vivia se escondendo dos clientes e ainda assim fiquei lá uns três anos embora não tenha aprendido a profissão de enrolador. Será este termo por demais eufemista?
Mas, a meu modo, passei também a enrolar. Meu irmão (mais um) montou uma oficina de reforma de móveis e eu era o procurador de serviços e, como era diferente dos demais e precisava comer, eu executava alguns destes serviços com toda a inabilidade que sempre tive em trabalhos manuais. Profissão: bombeiro enganador. Pode até soar, mas não é encanador, é enganador mesmo. Explicando novamente: bombeiro, no Ceará é o operário que faz tudo mal feito e enganador é o superlativo do termo. Só pra se ter uma ideia das minhas “mágicas” soldava cadeira de ferro (cano) com um cabo de vassoura e cola. Com esta enrolação sustentei a casa durante uns seis anos.
No período do último ano fiz hora extra: estudei todas as noites e aos domingos, durante o dia. Foi o que me salvou a pele pois no colégio não tinha aprendido quase nada e quando fui fazer meu único concurso público, passei entre os primeiros. Maravilha, iria ser bancário num grande banco público! O que descobri depois é que, neste ramo os serviços, repetitivos e neurotizantes, fazem com que um bom percentual ao se aposentar esteja meio maluco ou bem depressivo, que é o meu caso. Esta profissão tem um epíteto bem menos nobre: auxiliar de ladrão. É uma atividade tão insossa que pouco teria a relatar no longo período em que a exerci.
Me aposentei meio na porrada, literal e figurativamente falando. Literal porque levei umas porradas de um assaltante dentro do banco, e eu que já apresentava um quadro depressivo, piorei bastante. Comecei a fazer bobagens dentro do serviço até que fui expulso e aí tive que apelar para a porrada figurativa para conseguir a aposentadoria, pois os analistas achavam que eu não tinha trabalhado ainda o suficiente. Devem ter razão, eu é que já nasci errado. Ou como diz outro irmão (desta vez adotivo): todo torto!
Com a aposentadoria pensei em realizar um antigo sonho: ir à Europa, visitar Paris, subir na Torre Eiffel, passear às margens do Sena, tomar um porre no Quartier Latim, ver as raridades do Louvre. Isto tudo, toda a mágica, teria um nome: Fundo de Garantia. Até agora o que rendeu foi dois passarinhos comprados por meu filho (raspa de tacho), e uma nova profissão que ele me arranjou: espantalho. Como tem um gavião nas redondezas e eu é que não saio de casa, voltei ao roçado e a função deve ser tão ruim quanto as outras daquele tempo. É mole ou quer mais?

Stenio, novembro de 2009.

PS: Meu “raspinha” (14 anos, 1,80m) sempre me recorda de uma outra que, apesar de não ser tão bizarra, era bem traumatizante para uma criança de uns oito ou nove anos: caçador noturno de cascavel. Não citei para não dramatizar demais o texto que alguns já acham pesado.

S.


quarta-feira, 2 de julho de 2014

VIDA SEVERINA


ATUALMENTE TENHO O PÃO DE CADA DIA MAIS OU MENOS ASSEGURADO (SE O INSS NÃO FALIR...), MAS JÁ PASSEI ESSES PEQUENOS APERTOS.
COMO APARECERAM MAIS DOIS OU TRÊS SEGUIDORES NO BLOG, E TAMBÉM TEM HAVIDO MAIS VISITAS POR CAUSA DOS AMIGOS DA CAIXA, REENCONTRADOS, ESTOU POSTANDO, MESMO JÁ TENDO FEITO ISSO NO FACEBOOK.

Mais Encomenda

Na minha infância fiquei um período afastado de minha família, deve ter sido dos seis até os dez anos de idade, e neste tempo morei no interior, onde conseguia o feijão com farinha, o que, na casa da minha mãe, solteira, sem trabalho fixo e com um monte de filhos, era bem mais difícil.
Fui resgatado, quando nem mais queria, pelo irmão Cocão, na época ainda conhecido por José Chagas, e fui morar na Bela Vista, numa casa de quatro cômodos pra dez ou mais pessoas. Nós éramos em sete, porque dois casaram e um outro morava com parentes no interior mas para compensar estes minha mãe logo recebeu o sobrinho Aloisio, que foi para a Capital com o intuito de estudar, e quase sempre tínhamos junto um ou mais dos irmãos dela, e mais um agregado, o Cobra.
Como normalmente ninguém conseguia emprego, vivia aquele monte de homens dentro de casa, fazendo bagunça, jogando baralho escondido da mãe, ou bola no meio da rua, e nesta última hipótese tinha também que vigiar o ônibus pois o irmão mais velho batia nos outros, se os encontrasse jogando bola.
Um outro irmão, já adulto, também conseguiu algum serviço, além do Aloisio e o Cobra, e logo nós estávamos tomando o dinheiro deste último no batidim (ou relancim, espécie de jogo de baralho). O Aloisio, muito comportado, não jogava, mas mesmo assim o salário dele só dava pra pagar o colégio e o ônibus. Diz ele que jogava bola, mas devia ser no meu lado cego.
Diante de um panorama desses, a gente tinha algum divertimento sim, mas quase sempre era à custa da miséria de um ou de outro, pois era o que permeava o nosso dia a dia.
Minha mãe já trabalhava, mas como doméstica, e ainda de gente quase tão pobre quanto nós, recebia meio salário mínimo, ou menos. Assim, quase sempre tínhamos que vender o almoço para pagar o jantar e neste sufoco o Aloisio sofria mais que os outros, com os dois turnos de trabalho e a escola noturna. Minha mãe, tentando protegê-lo, fazia um prato e escondia, pra gente não comer, mas como na casa não tinha muitos esconderijos, e com tantos famintos procurando, invariavelmente, ele ficava sem. Um irmão mais sacana começou a deixar o prato coberto e vazio para Aloisio descobrir e não ter nada dentro. Depois de uns três dias caindo no truque, ele começou a levantar o prato para deduzir, pelo peso, se tinha comida ou não. O sacana logo viu que não tava tendo mais graça e passou a botar areia, para ficar pesado e rir mais ainda, quando o faminto sentisse o peso e achasse que tinha comida.
A casa era infestada de ratos e o mesmo irmão mais sacana, armava a ratoeira com a isca de goiaba, já que do queijo, claro, não tínhamos nem o cheiro. Tio Maneo, também muito espirituoso, desarmou a ratoeira com todo o barulho e ainda imitou o ruído do rato imprensado. Rapidamente o Antônio correu pro local falando: ande bichim, coma goiaba! Foi um sacana sacaneando o outro, e todos nós rindo.
Já adulto, certa vez fui em uma fazendola da qual fora coproprietário e vendi minha parte para o outro sócio. A esposa dele pediu para eu fazer um poema sobre a fazenda, e eu disse que ia pensar, mas estava decidido a não fazer porque eu só via ali, miséria, exploração do homem pelo homem, e até trabalho infantil, utilizado pelos pais dos menores. Ao chegar na cidade ela mostrou uma montanha e disse que era linda, e também pediu uma poesia. Eu olhei e o que vi foi uma favela subindo morro acima e também pensei: porra, eu não sou João Cabral (de Mello Neto), para transformar miséria em beleza. Depois de alguns dias acabei juntando os dois pedidos e atendi à pedinte, todavia não mandei para ela a encomenda, por motivos óbvios.
Desta vez também eu estava decidido a não escrever para não expor misérias, e quando iniciei pensei também em não mandar, mas como agora eu conheço mais o pidão e sei que aguenta: taí.
Como um prato cheio de areia, anexo, abaixo, o poema.



MODERNIDADE


Sol a pino, mulheres (ocidentais) de burca
Suando em bicas a colher abóboras.
Crianças dão sal ao gado, embalam verduras
Trabalho no campo: exaustivo, inglório, ilegal.

Um ninho de passarinhos, com fugas e cantos
Ao lado da casa “sede”, nem sequer é visto
Não há tempo para deleites, romantismos.
A sobrevivência é que lhes dita o dia a dia.

E o trabalho infantil, e a extorsão das mulheres
Vai parar na minha mesa, normalmente farta
E na de gente ainda mais exploradora.
Triste ser humano que seus escravos perpetua.

Os burros de carga coexistem com avançadas
Tecnologias, e estas que a bem poucos beneficia.
Bela musa me diz, como se pode escrever poesia?
Preciso que um bom médium me evoque

De Castro Alves o espírito pra escrever com alma
Sobre escravos modernos, que nem são africanos
E um encosto de João Cabral que me transmita
A fórmula mágica de dizer que a miséria é bela.

Mas a não muitos quilômetros, já na cidade grande
Mesmo que forçado, o povo pobre faz a poesia
Empurrado morro acima na bela montanha
Que desmorona em versos que à musa contraria.

E à noite, quando as luzes mais baixas e mais ricas
Sucumbem à imensidão de vaga-lumes
Me regozijo e, pra não dizer que não falei de flores
Vejo ao longe e bem alto uma via láctea. Belíssima!

Março, 2013



sexta-feira, 6 de junho de 2014

Carona na Morte







O PESSOAL QUE TRABALHA COM PUBLICIDADE DE LIVROS OU FILMES COSTUMA PEGAR ESTA CARONA QUANDO ALGUM AUTOR OU ATOR MORRE. NO CASO É USADA A CARONA PARA DAR MAIS PUBLICIDADE À OBRA OU DESPERTAR A CURIOSIDADE DO PÚBLICO. ESTOU FAZENDO O MESMO POIS JÁ TINHA ESCRITO ESTE TEXTO E NÃO PUBLICADO, MAS GARCIA MARQUEZ MORREU...

Insights Mediúnicos

Há mais ou menos uma semana eu os estou sentindo. Se comento alguma coisa, daqui a pouco outra pessoa que não tomou conhecimento toca no assunto, às vezes até mais de uma pessoa, ou acontece um encadeamento de assuntos relacionados àquele. Começou com o já falecido escritor e poeta Miguel Marvilla, do qual estive recordando que ele me vendeu um livro há muito tempo (uns trinta anos atrás), e eu relembrei um poema que gostei e único que me lembro: Não Houve uma Tarde em Manguinhos. Como a lembrança ficou meio teimosa em minha cabeça resolvi fazer um em homenagem ao autor, e escrevi “Delírios”. Não quis pesquisar e reler para não sofrer muita influência, e somente após terminar é que fui ler o dito cujo, e para minha surpresa era tão parecido que, em alguns aspectos, beirava o plágio. Outra surpresa é que o poema é de Gilson Soares, de quem nunca ouvi falar e, duvidando que fosse mesmo dele, continuei pesquisando e li um depoimento de Marvilla, onde ele fala em plágio e que se alguém for plagiar que o faça com Cem Anos de Solidão, de Garcia Márquez, pois em sua opinião, é o único que merece o pecado. À noite, vendo um filme ruim que nem me recordo o nome, um personagem fala que “depois do Gênesis, Cem Anos de Solidão é o único livro que toda a humanidade deveria ler”.
No outro dia fui à minha regular consulta com a psicóloga e começamos a falar sobre livros, escritas, e misturamos com os grupos de pessoas que ela acompanha, e para um destes ela me convidou para fazer uma oficina. Eu retruquei que não sei e que a única que assisti foi ministrada por quem? Marvilla! Ela me diz que ele frequentou o curso (de psicologia) junto com ela. Aí é demais, não?
No terceiro dia minha bela nega me aparece com o Cem Anos e a promessa de receber emprestados o último romance do Gabo, Memórias de Minhas Putas Tristes, e efetivamente o traz no dia seguinte. O livro é composto de pouco mais de 130 páginas e como eu não o lera, no mesmo dia li mais da metade delas. No preâmbulo é afirmado que a história é de um ancião de 90 anos e exatamente no dia em se torna nonagenário, ele solicita a uma conhecida cafetã que lhe consiga uma Lolita virgem para ele passar a noite. Parêntesis breve: na mais da metade que li do livro cheguei à primeira página em que ele desenvolve este tema. Parêntesis fechado, voltemos aos nossos pensamentos conectados. Pois bem, não voltei a ler o livro mas esta primeira página trata, diz aí de quê? Delírios! É, bebé, eu que não creio (peço a Deus por minha gente) fiquei até com medo. De duas coisas: do fato em si, de não ter fé, e dos finados que, segundo dizem, permitem ou transmitem seus pensamentos aos médiuns.
Consideremos que no meio da narrativa eu ainda comi mosca: no mesmo dia em que chegou o romance da ninfeta eu, comentando sobre escritores russos, e isto também por causa do que lera sobre o poeta tantas vezes já citado, me enganei e disse que não tinha lido Lolita. Bom, antes do fim do dia me apareceu uma para eu ler, de um Nobel colombiano, mas depois lembrei que tinha lido sim, só que tenho o péssimo hábito de não conservar os livros, porque sei que não terei paciência para reler. Estou pagando meu pecado relendo um bem robusto: Cem Anos de Solidão.
Para Gabi, Úrsula e Remédios, as belas.
Setembro de 2013.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

JÚLIO VERNE DO PARAGUAI.

EU PENSEI EM TUPINIQUIM MAS ACHEI QUE SERIA MUITO METIDO, E PREFERI UM JÚLIO FALSIFICADO.

Uma volta ao mundo em 30 minutos

Acontecia quando minha mãe vinha de Fortaleza e ficava uma temporada conosco. Saíamos para andar um pouco e tomar sol e geralmente fazíamos o mesmo trajeto, até porque ela já beirando os 90 anos me deixava sempre apreensivo com medo de um tropeço e queda. Assim, o caminho era sempre ou quase sempre, o que me parecia menos arriscado. De tanto girar nestas cinco ou seis quadras, conhecíamos as ruas, calçadas, buracos, saliências, cachorros, galinhas, papagaios, bem-te-vis e até gente. Não é de graça que tem o até e vem por último. É que eu sempre brincava com ela que não gosto de gente e respondia com um grunhido quando me saudavam com um bom dia, ao contrário das calçadas, buracos ou bichos aos quais eu oferecia a saudação.
Bem, mas se conhecíamos todos, também, óbvio, éramos conhecidos e os primeiros que eu comecei a implicar foi com uma turma que ficava em frente a uma gráfica, esperando iniciar o expediente. Como estavam sempre conversando e rindo eu dizia que era mangando dos dois velhinhos, um puxando de uma perna e a outra tentando puxar o corpo inteiro. Como minha mãe ficava uns seis meses em Fortaleza, quando voltava e algum deles ria, eu dizia que era de alegria, porque todos os outros apostaram que o casal sesquicentenário já estaria no cemitério, e só ele ganhou. Outras vezes vários riam e eu imaginava a piada sobre os dois ressuscitados.
Por falar em ressuscitados, havia uns buracos, quase crateras, na rua do valão, e para mim eram as covas rasas onde os trabalhadores noturnos do submundo do crime guardavam o produto ou subproduto de seu trabalho. Como havia também os mortos através de mandingas (quase sempre havia resíduos de macumba nas ruas), estes nem sempre tinham o trabalho bem feito, e viravam mortos-vivos que tentavam escapar das covas, furando a enorme laje de baixo para cima.
Mas, deixemos um pouco os mortos e falemos dos vivos. Dos cachorros eu sempre fui muito amigo e tinha sempre um gesto de carinho pra qualquer um e em especial, para os que vivem na rua. Ocorre que um que tinha dono, vivia preso e magro, parecia com fome, passou a encrencar conosco. Sempre vinha no portão e latia muito, quase uivava, tentava me morder, enfim, uma enorme fera de 20 ou 30cm. De tanto eu mexer com ele e de tanto ele irritar, um dia apareceu um menino e mandou ele se calar. Ele não só se calou como desapareceu e está sumido até hoje. Eu sempre procurava o bicho, e nada. Acho que o menino era mágico e fez o cachorro ficar mudo e invisível, pelo menos durante o período em que passávamos.
Com o papagaio eu não tinha muita intimidade e só ficava imitando-o bobamente: currupaco, currupaco! Já os bem-te-vis viviam atrás da gente, parece que gostavam também de caminhar e por duas vezes nos seguiram em pequenas viagens a Marataízes e Guarapari e nesta última um deles me aprontou. Meu sobrinho Eric fez uma farofa que eu gostei muito e mandei pedir mais, só que o transporte não foi nada ortodoxo. Marítimo, até aí tudo bem, mas o transportador foi uma onda e a embalagem uma garrafa plástica. Não sei se ele errou o CEP ou a onda não é boa de leitura mas o fato é que a garrafa foi parar em Guarapari e assim que a vi pulei na água, com toda a aversão que tenho a banhos de qualquer espécie. Ora, não é que a tal estava vazia e imediatamente o mais afoito dos pássaros, acho que era a fêmea, passou dizendo: eu-que-comi, eu-que-comi. Este disgranado ou migrou da Bahia ou veio comigo desde o Ceará.
De galinhas, no plural, não posso falar pois só havia uma, sorte minha se não eu poderia ser processado por poligamia já que a mesma casou comigo. Todos os dias eu ia vê-la, jogava beijinhos e ela có-có, có-có, cocorococó. Minha mãe dizia que eu tava caducando, não entendia nada, mas eu e ela, minha esposa galinácea, nos entendíamos muito bem. Um belo dia, já cuidando de nossos seis filhos e sendo eu um pai ausente, a zelosa mãe, querendo agradar aos filhotes ou tentando fazer deles atletas olímpicos, fez lá umas piruetas e saltos de dar inveja às Daianes Santos ou Diegos Hipólitos. Numa acrobacia mais ousada aterrissou de mau jeito, ficou sem bacia, quebrou as pernas e, claro, virou paraplégica. Teria que ir para os para-jogos. Meu sogro não gostou da estória, fez um ensopado da coitada, sem nenhuma piedade dela, ou pior, dos seis órfãos. Eu o excomunguei, virou sogro assassino – filicida. Até hoje brigo com ele quando o vejo, cheguei a ir à delegacia prestar queixa, mas o delegado, pacientemente, me explicou que o Código não previa pena (sem duplo sentido) para assassino de galinhas. Ainda bem que não foi a sogra que já é tão mal-afamada. Menos a minha, que é outra mãe.
Agosto de 2007.
Stênio, em lembranças para a mãe biológica, em sua sobrevida.
Colaboração de Ana Paula.

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terça-feira, 19 de novembro de 2013

AVES E OUTROS BICHOS...ENCANTADOS.

A Cigarra, as Formigas e a Cachaça.


Minha mãe sempre falava que bem-te-vis se disfarçam, que são assim como os agentes secretos entre os pássaros, e eu ficava imaginando como ele se portaria de agente da CIA ou de James Bond. Como em outros textos andei xingando os mesmos (os pássaros, não os agentes) e principalmente uma fêmea que me comeu uma farofa preparada no Ceará e, não satisfeita, após cometer tão bárbaro crime, ainda veio me zoar. Mexer em farofa de cearense ou baiano é briga na certa. Bom, parece que a moleca é vingativa pois deixou baixar a poeira, já que vingança é um prato que se come frio, e atualmente, não só disfarçada mas também invisível, tem entrado aqui em casa e detonado o meu outro sagrado objeto de desejo – a bebida. Meu estoque se reduz em razão quase geométrica enquanto eu só consigo repor em razão aritmética. E ainda dizem que esta é água que passarim não bebe.
Se eu não tivesse este terrível, perigoso e declarado inimigo e ainda, se estivesse um pouquinho de bom humor (mas nem me lembro mais o que é mesmo isto) poderia por a culpa no tal do aquecimento global, pois com o alto teor etílico a bebida estaria evaporando rapidamente mas, apesar do verão, tem por aí uma outra moleca – la nina – conhecida como o “ar condicionado de Deus” mas que na verdade deve ser outro bem-te-vi em uma forma mais extravagante de disfarce, e não deixa o verão ter o calor de costume, aí não tem jeito, é a bem-te-vi mesmo, quem está ingerindo meu ouro.
Quando ela não era invisível eu consegui identifica-la por duas vezes. Na primeira estava travestida de pomba e minha filha sofria com a dita cuja, pois todos os dias ela vinha cedinho acordar minha bela Rose e depois ficava bicando-lhe os pés até ela lhe dar comida. Só não funcionou melhor porque nós tínhamos um vizinho médico que tem fobia a pombos, diz que é hospedeiro de muitas doenças e ordenou a um empregado a execução do pássaro duplo. Deste crime não fui testemunha, portanto pode ser que ela, esperta e desconfiada como são os agentes secretos, além de muito duros de morrer, tenha mesmo é fugido ou se transformado em um inofensivo siamês que logo apareceu no outro apartamento.
Como eu já era portador de má fama, natural e injustamente, levei a culpa, pois alguns dias depois houve uma invasão de minúsculas formigas e tudo que foi bem-te-vi sumiu da rua. E ainda, para corroborar minha teoria, elas viviam dançando na boquinha da garrafa, bebendo minha cachaça, é claro, mesmo esta estando sempre ao lado de outra com mel, mas que nunca era molestada. Tive que contratar um dedetizador e o miserável chegou com umas, segundo ele, novas tecnologias. Aplicava injeção nas coisicas e me nomeou ajudante de enfermagem. Minha tarefa: pegar uma por uma as formigas e localizar suas minúsculas bundas para que ele aplicasse a porção mágica. Como sou rupestre devo ter falhado na execução de tão nova tecnologia e tive que pagar sem que os passarinhos/formigas morressem. E aí quem morreu mesmo foi o fulano pois eu, puto da vida por ser roubado e feito de babaca, roguei-lhe uma bela praga, daquelas que o maestro Jobim chamou de “praga de madrinha”, que não tem perdão. Foi vingança de ansioso, não deu tempo o tecnólogo subir o morro inteiro, bem antes disso foi atingido com meio vidro de azeitonas no meio da cara. Foi direto pra Maruípe, não sei se obra de um agente secreto ou de traficante de drogas, ou ainda, um disfarçado no outro. Roubando a frase de meu amigo Rodrigo Souza: comigo é assim!
Eu sempre soube que com injeção se dá é remédio, e as formigas também pensam dessa forma já que rapidamente se multiplicaram e ficaram bem mais fortes, e aí sim, já dava pra admirar as bundinhas delas. Contratei um novo mata-formigas, mas antes dele começar seu trabalho, fui logo apelando pra ignorância e contando como morreu o anterior. Ele deve ter acreditado, pois há vários anos não se encontra uma só formiga, nem pra fazer remédio.
Meu inteligente leitor já sabe onde está a cigarra, né? Minha falecida mãe deve ter lido La Fontaine, com certeza às escondidas, pois ela dizia que não sabia ler, embora tenha vivido 90 anos sempre aprendendo. Mais um disfarce, e bem duradouro.

Stênio, na idade da pedra lascada.

sábado, 9 de novembro de 2013

UMA DAS MINHAS MAIS BELAS PÉROLAS

BERNADETH, QUE NOS MOMENTOS MAIS DIFÍCEIS ESTEVE SEMPRE AO MEU LADO, E SEU OMBRO MUITAS VEZES FICOU BEM MOLHADO. ME RECONDUZIU À VIDA, QUANDO EU PENSAVA QUE NÃO MAIS A TERIA.


Leoa Saciada
Ela rugiu alto durante muito tempo
Amedrontou inimigos, afugentou feras
Mas sua língua áspera que lhe servia de arma
Muito útil, para lamber a cria também era.

E nesta dualidade, entre a força a e leveza
Encontrou o equilíbrio, como um regalo
Sem muitas oscilações tocou a sua vida
Sabendo o que queria e como pegá-lo

Com o tempo suas garras ainda afiadas
Só queria aos semelhantes, acariciar
E aposentou também os seus rugidos
E assim Bernadeth foi psicologar

Penetrar não mais na carne, mas na alma
Daqueles por quem fosse interessada
O pão não lhe custava mais o suor do rosto
Ela, finalmente era, leoa saciada.

Agosto de 2013.