segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

DIETA DE URSO POLAR

COME MUITO PARA HIBERNAR

Vasculhando minhas "gavetas" encontrei este texto que foi o primeiro, dos cerca de trezentos que tenho escritos. Como falo nele , ficou hibernando durante dezesseis longos anos.

Comecei uma Dieta

19/01/1991(?) – Não sei que data é essa pois o manuscrito que estou copiando ficou perdido por um longo tempo e a data não é compatível com minhas lembranças. Por elas eu teria escrito isto em 1998, mas aí o mês também não corresponde ao que vivi no período, mas onde está o diabo dessa dieta que não começa? Ah! Tá bom, vamos começa-la assim: comi uma pizza e é uma mesmo, não me refiro a alguns pedacinhos, não. Você ri? É verdade – segunda-feira, dia tradicional de começar qualquer coisa, especialmente dieta - e eu comecei assim e ora, vejam bem, não é regime de engorda, deveria ser o contrário mas, eu garanto que se atingir um mínimo do objetivo, devo ficar rico e famoso como ficou a ex-quaseprimeira dama, Tereza Collor. Mas deixemos as tolas divagações e voltemos à história, mas que história? Até agora só saiu o começo de nada, mais começo e mais nada, um verdadeiro saco, não? Então vamos acabar com essa merda, e dar descarga. Peraí gente, vamos dar descarga sim, mas descarga real pois tô escrevendo em cima do vazo já que a bruta da pizza e minha baita deseducação alimentar me proporcionaram uma tremenda diarreia. Botei a moleca toda pra fora e lá se foi também para o vaso a carreira de um ex-futuro famoso regimista, juntamente com a do escritor que só conseguiu escrever 16 linhas, e ainda curtas, pois, como já citado, são manuscritas. Aqui um pequeno esclarecimento: depois de também 16 anos (provavelmente), e já no teclado, é que as linhas esticaram um pouco mais.
20/01/1997(?) – Mais uma data aparentemente fantasma ou pelo menos em parte, é mesmo, considerando-se que ainda é dia dezenove. Então porque registrei dia 20? É que sei que amanhã não terei a mesma disposição (leia-se, preguiça mesmo) para escrever posto que levei 47 anos para começar (aqui a referência nos remete para 1998), então já faço o dia seguinte. Olha, e com essa minha vidinha de merda (vida diarreia?), tão rotineira e previsível, se não fosse a já acima (des)qualificada preguiça, eu poderia escrever os próximos 47 a não ser que meu bom Deus, no qual eu só acredito um titiquinho de nada, e ainda por medo, me deixasse morrer nesse pequeno período, o que não acredito mas se ocorrer, pelo menos houve uma surpresa, algo diferente a me acontecer já que, pra quem não sabe, eu nunca morri, pelo menos que eu me lembre.
Mas, porra, esse negócio só tem começo? Cadê a história do dia vinte? Calma leitor, tome seu comprimidinho que eu já tomei o meu, e em dose dupla. Mesmo assim vamos ao famoso dia 20, que como este texto, nem começou, ou um só começou e o outro não (só não sei quem é quem).
Diabos, agora no plural, porque este dia 20 não sai? Acho que são traumas, porque este é o dia do suplício, do pagamento (de quem?). Sou bancário e bastante endividado e este é o dia de receber, digo, de pagar. Bolas, já nem sei. Dizem que me pagam e eu digo que pago aos outros, mas como na antiga URSS, estamos ambos fingindo. Porra de dia 20 chato também, dá pra passar logo pro outro mês, ou ano? Quem sabe foi por isso que ocorreu toda a confusão das datas.

Obs. Este texto me parece sem maior valor literário, mas eu quis salvá-lo porque foi o primeiro que escrevi e numa época de crise financeira e depressiva, além de nem me passar pela cabeça que posteriormente eu viesse mesmo a escrever.
Arrumado em 05 de setembro de 2013 (esta sim, data real).
P.S. A propósito de confusão de datas, certa vez escrevi um texto com o título “O Fora do Eixo” e inconscientemente pus a data de 20 anos atrás. Foi publicado num site e como falava de coisas acontecidas bem mais recentemente, o editor achou por bem esclarecer alguma coisa, e nisso falou que eu pusera a data de propósito, para combinar com o título e outras coisas meio malucas ditas ao longo do escrito. Deixei o dito pelo não dito. Ou seria o não dito pelo dito? Sei lá, deve ser também confusão de datas, pois o Dito era um moleque que conheci quando também moleque.
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quarta-feira, 7 de outubro de 2015

BONS MENINOS

DURANTE OS VINTE E CINCO ANOS QUE TRABALHEI NO BANCO TIVE BONS COLEGAS E ALGUNS EXCELENTES CHEFES, MAS TAMBÉM TIVE ESTES.

Babacas e Chatos

Será que eram mesmo necessários os dois nomes? Deve ser só porque são pessoas diferentes ou uma só palavra é pouco pra definir as peças.
Na rua onde moro quase toda semana passa um bandido (pois só pode ser), com a moto superpotente fazendo um barulho insuportável. Eu sempre falo que ele tem doutorado em babaquice e só não dou uns berros, que certamente ele não ouviria, porque sou por demais medroso e ainda porque “dou um boi pra não entrar em briga, e uma boiada para não sair”.
Tenho um amigo cego que é meu instrutor de xadrez (e por aí avaliem o quanto eu enxergo). Bom, mas o fato é que caí na bobagem de falar pra ele que minha esposa é perita em tolerar chatos, e está muito claro que chato são os outros, não eu. Bom novamente, tá quase bombom de tanto bom, ele falou que vai trazer a namorada aqui pra ela fazer um curso completo de como tolerar chato, pois está pensando em se casar com ela. Este deve ser o bacharelado e eu que trabalhei 25 anos em um serviço muito chato e com vários chefes idem, lembrei de alguns, cujas esposas bem podiam dar os cursos de mestrado e doutorado pra menina, na remota hipótese de o que ela aprender aqui ser insuficiente.
Algumas destas professoras estão em um nível altíssimo de conhecimento da matéria, e assim eu corro um sério risco de ser injusto ao nomear uma delas para o mestrado.
Vou me arriscar com a Regina. Esposa do Aragão há cinqueeeenta anos, ela não se rebelou diretamente, mas arriou, psicologicamente falando. O cara é extremamente difícil, sempre com o mesmo papo e com uma insegurança que, acho, fez ela não larga-lo quando ainda era tempo. Esta com certeza tem doutorado: em anjologia.
Ubirajara, ou como é mais conhecido, o Bira, perdoem-me, mas este tem que ir pro final, pois é unanimidade em chatice.
O Mário, que já citei em uma crônica, sabe tudo, sempre tá certo, e reclama que nem bode embarcado, além do papo pegajoso e sem graça. Pois pois, depois de fugir dele durante uns quinze anos, encontrei-o em um ponto de ônibus, e nem o meu nem o dele chegaram antes da eternidade. Após um longo e tenebroso inverno, vejo ele correr e balançar os braços que nem o boneco da Shell, na avenida vizinha à que estávamos. Em um primeiro momento me espantei e até pensei que ele estivesse tentando fazer um bem pra humanidade, se suicidando. Mas logo vi que o cara não tem nada de “o cara” e lá estava o motorista do ônibus dando ré e voltando à avenida principal para levar a(o) mala. Tentou escapar fingindo ter errado o caminho, mas não é nada fácil se livrar de gente tão chata.
Os turcos Almir e Rubens, e vou por os dois juntos pra ver se valem a frase, eram subchefes e não se bicavam nem um pouco. Rubens assumiu a chefia por uns cinco dias e no primeiro cortou o meu ponto. Já o Almir, ameaça quase perene de assumir em definitivo a chefia, fez com que o Leonardo, único funcionário do Setor, andasse com o pedido de aposentadoria antecipada, devidamente datilografado, no bolso da calça.
Seu Alexandre Walter,veio de fora pra assumir a Gerência Regional da Caixa no ES. Soube, não sei por quem, quais eram as pessoas mais antipáticas da Filial e nomeou-os assessores, e lá estávamos nós com mais dois Rubens para odiar. O chefe deles, dada a função que tinha, bem que podia acumular com a de Chefe Geral dos Chatos. Os três já morreram, deve ter sido de praga.
E finalmente chegamos no Bira. Bira, Bira, Bira! Este merece uma estátua, e creio que só não fizeram porque ele já é um monumento: à chatice. Quando ele trabalhava, talvez porque eu não trabalhava diretamente com ele, não o achava tão chato. Foi só ele se aposentar que virou unanimidade. Pra começar todo ou quase todo dia ele ia na Caixa. Começou a reclamar (penso que o faz até hoje) que não recebia o tiquet alimentação, e tava sempre na Seção de Protocolo para reclamar por escrito. Numa dessas um colega falou que não queria aposentar e ficar como ele, Bira, todo dia batendo ponto. Ele tava fazendo o que mais sabe, no banheiro, e imediatamente cortou a seção pela metade, vestiu uma boa carapuça e foi à chefia. Fazer o que? Reclamar, é claro. Ele tem uma assessora jurídica, exclusiva para reclamações. Bom (de novo), é melhor a gente parar por aqui, né? Apesar de ainda ter o voto que ele votou NÃO, e ainda tirou foto para comprovar, como se preciso fosse! E se for relacionar o que uma meia dúzia de pessoas conhece, vai dar um livro. Só dele!
Setembro de 2015.

terça-feira, 14 de abril de 2015

TRAUMAS

VEZ OU OUTRA A PSICÓLOGA COM A QUAL ME CONSULTO FALA QUE ESCREVER SOBRE ELES AJUDA NA TERAPIA. ENTÃO TAÍ, VOCÊS,LEITORES, SERÃO TAMBÉM MEUS CURADORES DA MENTE.


A Boneca Aleijada
Há poucos dias li uma crônica de Elizabeth Martins, em que ela fala de presentes ganhos na infância e guardados até a vida adulta, ou mesmo até a morte. Ela diz inicialmente que não se lembrava de nenhum, mas depois descobre que aos seis anos ganhou do pai uma coleção de livros. Eu me lembro de dois, ambos ganhos de professoras primárias; Um livro, também, e uma bola de borracha, mas só lembro o destino da bola porque, óbvio, furou e foi pro lixo. O Natal, que por coincidência também é a data do meu aniversário, nunca existiu na minha infância, apesar de a musiquinha infantil dizer que “seja rico, seja pobre, o velhinho sempre vem”. Na Bela Vista, bairro paupérrimo de Fortaleza, ele, se vinha, vinha disfarçado ou escondido, com medo de ser apedrejado pela grande maioria que não ganhava nada.
Já adulto li um livro, “O menino Descalço”, de Oswaldo Abraão, autor meu conhecido, que também teve uma infância assim, e, todos os anos, ele comprava presentes de Natal e doava a crianças carentes. Parabéns pra ele, porque da minha parte não tenho nenhum apreço pela data, continuo sem receber presentes (agora por opção), e, fora os presentes obrigatórios, para mãe, esposas (tive duas) ou filhos, só me lembro de ter dado um, através do “Papai Noel” Correios, e nem sei se pode ser chamado de “presente”, pois doei uma bolsa com material escolar.
Este preâmbulo todo foi só pra dizer que me emociono muito vendo uma criança sem brinquedos, ou que possui somente os que ela inventa ou faz, como eu, às vezes, fazia.
Hoje, sendo já aposentado, e não mais dirigindo, ando bastante a pé, e outro dia, em uma caminhada, vi uma boneca na calçada, e pensando nos que não tem nenhuma, fui lá e peguei o brinquedo. Achei que a boneca de pano estava apenas suja, mas depois descobri que lhe faltava um braço, além de ser toda desengonçada. Senti como se ela fosse uma criança pobre, filho feio (que não tem pai), e abandonada. Já não queria mais doar o brinquedo, seria meu, ainda que impróprio para maiores de 65 anos, e ainda, do sexo masculino. Eu queria que aquele brinquedo apagasse alguns dos traumas adquiridos por não ter quase nenhum na infância; e por falar em infância, além de trabalho, o que tive muito nela foram proibições e com todo este quadro é bem natural os mais de vinte anos de psicoterapia, que carrego nas costas e na cuca. Parece que vou ter mais muitas seções, pois se a psicóloga logo falou que eu escreveria este texto, minha bela nega, quase sempre paciente e compreensiva, me subtraiu o brinquedo, e me somou mais uma proibição. Megera! Ainda bem que pelo menos o trabalho, o outro dos meus três monstros da infância, não mais pratico.
P.S. Ainda da psicóloga, certa vez eu comentando sobre a capa do livro que escrevi, falei que uma mulher era poetisa e dava as costas para as maldades do mundo; enquanto a outra era a guerreira, mãe do mundo, e defendia sua prole com muito vigor físico e força mental, como o faz quase toda mãe. Ela me fez um baita elogio: disse que a soma das duas era eu! Agora eu fico pensando se a boneca aleijada não era também eu. O eu dos meus traumas de uma vida toda, pois não os tive só na infância. Amanhã vou lá, descarregar um ou mais deles nos ouvidos da minha bela ouvinte/conselheira.
Março de 2015.

sábado, 24 de janeiro de 2015

AMOR FILIAL, AMOR PATERNO, AMOR, AMOR, AMOR.

MEU BICHINHO QUE SE FOI. COMO FALO NO TEXTO, GANHEI OUTRO, ATÉ MAIS INTERESSANTE QUE ELE, MAS A TRISTEZA PELA PERDA É GRANDE.

A Morte do Professor

Antes de mais nada um esclarecimento: ele foi batizado de Professor; não era um professor de verdade, embora, pelo menos a mim, tenha ensinado algumas coisas. Como ele era bem diferente dos demais, estava aqui e ali me fazendo escrever uns pequenos textos, ou citando-o, junto com a esposa Sofia, em alguns outros. Vou fazer uma interrupção pois faz poucas horas que ele morreu e eu já chorei um bocado e me encontro bastante triste. Voltei pouco tempo depois porque lembrei-me que nunca tinha chorado diante da morte, e creio que deve-se ao fato de esta ser inesperada. As outras pelas quais passei foram de pessoas idosas, ou foram lentas e esperadas (por doença) ou ainda, até desejadas, no caso, para evitar mais sofrimento. Meu Professorzinho (como o pai, João Vitor, e a avó, Ana Paula chamavam) morreu de complicações advindas de um acidente.
Ele e Sofia formavam um belo casal de calopsitas e tiveram mais de trinta filhos, que por não podermos criar, vendemos ou doamos, mas o interessante é que há poucos dias ganhamos um filhote superespecial: canta, conversa, dá beijos na boca e ainda estalados. Muito carinhoso, se deixar ele passa o dia inteiro pendurado no ombro. Também muito novo, e como não é filho foi logo passando a conversa na Sofia, e ganhando a inimizade do Professor, que sempre foi super apaixonado e ciumento.
Há uma semana minha mulher chegou em casa meio aborrecida e cismou que a dita cuja estava suja. Mandou vassoura e pano pra tudo que é lado e abriu um pouco mais uma das janelas, além de destravar e depois não travar de forma correta, uma das portas. Em pouco tempo deu um vento mais forte e foi aquele estrondo da porta fechando. Eu e Professor nos assustamos e, eu fiquei com vontade, mas ele sumiu mesmo. Procuramos por todo a casa e eu até rodei por diversos quarteirões em busca dele sem sucesso. Perguntamos a vários conhecidos e pedimos para que perguntassem aos seus conhecidos mas não tivemos nenhuma resposta. Passamos a admitir que o tínhamos perdido, mas um dia e meio depois ele me aparece semi-moribundo. Tinha passado o tempo todo atrás de uma porta, sem dar um pio sequer, logo ele que atazanava nossos ouvidos quando algo não estava ao seu gosto. Não entendemos nada. Passamos a lhe dar soro caseiro no bico e ele parecia que estava reagindo, mas uns dois dias depois, como ele não comia sólidos, minha mulher consultou uma veterinária, que mandou dar-lhe papa apropriada para passarinhos. Ele comeu um pouco e não resistiu, umas duas horas depois papocou.
Como eu sempre falo ou penso que sou bom para terminar textos, aqui vai o que me levou a escrever este. Logo que ele voltou do túmulo, o Nem, nosso filhote adotado, aborrecido porque achava que já tinha ganhado a viúva, começou a brigar, e muito, com ele, Professor. Tínhamos que separá-los a toda hora pois o Professor, debilitado, não tinha como se defender. Ocorre que umas doze horas antes de falecer, eu presenciei uma cena inusitada do Professor: ele chilreou alguma coisa, encostou no mais novo e deu-lhe um beijo. E o outro não o recebeu a bicadas, ao contrário, retribuiu o carinho, num gesto que eu achei lindo, da parte dos dois, e que me parecia, naquela hora, um pedido de desculpas e de amizade aceito. Posso estar “viajando” mas o que me fez mais chorar foi que depois aquele gesto me pareceu muito mais um pedido para que o moleque cuidasse bem da viúva e dos quatro recém-nascidos, que ainda se encontram no ninho, e comem no bico. Ele aceitou e está cumprindo a promessa. Deve ter menos de um ano, mas como menino prodígio que é, já alimenta os filhotes.
23/01/2015.

domingo, 21 de dezembro de 2014

DAMA (DONA) DA NOITE

UM TEXTO MAIS LONGO E ÚNICO MEU DE FICÇÃO. DIZEM QUE É UM CONTO.

Brilhante Dama

Aos primeiros alvores matinais ela rola na cama, lânguida e relaxada como se tivera uma linda noite de repousante sono, velado por querubins, após ter feito amor por longo tempo, mas não sabe se também com um anjo ou com o próprio deus. Grego. Inspirada talvez por estas divindades decide que será bem especial o belo dia anunciado pela réstia de sol que teima em se esgueirar por entre o cetim do cortinado. Será um dia completo e narcisistamente só seu. Completo sim, de sonhos, desejos, paixões, loucuras, poesias. Delibando-se previamente nas iguarias a ser vividas, alonga todo seu retilíneo corpo e calmamente deixa o leito, imaginando se ele a servirá melhor ainda, naquele mesmo dia. A intrusa réstia de sol já espalha sua claridade e com um leve ardor circula pelo belo corpo, ainda semidespido, e lhe anuncia o bom dia do astrorrei.
Hora da primeira refeição que já se encontra à mesa e nada fica a dever aos Palaces de Paris ou Nova Iorque. É, o dia realmente promete! Cada porção de alimento que vai à boca é mastigada e saboreada longamente e com muito vagar, quase que num ritual zen, em que não existissem tempo, obrigações, relógio. Aliás, o dela quebrou há poucos dias e ela jurou, como se preciso fosse, que não usaria outro. Providencial.
Será que o sol já cumpriu sua rotineira tarefa (o sol, este sim, tem obrigações) de colorir e aquecer águas e areias? Caminhando umas poucas centenas de metros é possível fiscalizar se o trabalho está sendo bem executado. Tão logo chega à praia deserta, ri interiormente ao pensar que o fiscal de ponto da grandiosa estrela é o seu diminuto, branco e bem cuidado pé, que com uma boa dose de sensualidade toca a tépida areia e imediatamente uma ruidosa e ciumenta onda quebra à sua frente e lhe vem, reverenda e mansa, beijar o escultural e atrevido pé.
Espalha pela areia seus muitos apetrechos de mulher e fica em dúvida se seu exigente corpo quer logo a água ou mais sol. Na dúvida, opta pelos dois e mergulha com a elegância de uma campeã olímpica. Em pouco tempo sai da água e preguiçosamente estende-se na toalha para curtir e ser curtida pelo agradável calor.
Sua tarde será dedicada a reposição de forças para o que ela idealizou como o melhor de seu dia. Dormirá após o almoço.
E quando a noite finalmente abre seu manto iluminado por milhões de estrelas, seus olhos brilham como aquelas e maliciosamente ela decide que vai se vestir de noite, seu manto negro será de seda opaca e suas estrelas serão grãos da areia matutina agora transformados em vidro, por fustigante calor mas não mais do sol. Serão miçangas tão reluzentes como se fossem rubis. Ela vai ser a verdadeira dama da noite – nobre dama - tão nobre que suas miçangas mais coloridas parecem mesmo rubis, e as mais pálidas parecem estrelas de uma constelação longínqua, vistas na noite escura. E todos são dela, rubis, estrelas, noite, constelação, miçangas. Ela é a dona do mundo. Da lua não é, pois esta não veio hoje ao firmamento. Certamente não quis tirar uma fatia sequer do esplendor da brilhante dama, ou quem sabe ficou temerosa de que esta brilhasse mais que ela.
Com este sentimento circula sozinha por elegantes bares e boates da moda. Não sabe se procura algo, ou se só quer exibir-se. Beberica em cada um dos lugares e pela madrugada decide voltar, pois não quer ver o sol romper a aurora e decretar o fim de sua noite, posto que em sua imaginação não haverá um fim para este dia/noite que está e haverá de ser tão perfeito.
Um pouquinho alta, caminha pelas ruas e encontra um jovem poeta a recitar versos à noite e seus distantes astros. Parece que aquele jovem teve também seu dia especial e a chama com sua poesia para juntos participarem do supremo ápice – o ato sexual – e aí ela descobre o que ainda lhe faltava. Rapidamente modifica o seu plano solitário e juntos caminham em busca da alcova adrede preparada. Das preliminares ao gozo decorre um longo tempo, quando então dormem embevecidos em cansaço e êxtase. Ao acordar pela manhã, já não tão cedo e, provavelmente pelo adiantado da hora, não encontra ao seu lado o anjo do prazer que lhe fez companhia. Sente-se confusa, não sabe se viveu ou sonhou aquele dia. O sol parece se aperceber disso, pois logo vem acariciar o mesmo pé que lhe aprovou o trabalho. Uma suave brisa sussurra ao seu ouvido: ainda que tenha sido um sonho, ele hoje pode ser realidade. E a dama, despindo-se da lingerie, também negra, começa a pensar em fazer ou sonhar tudo de novo, mas será que um dia tão perfeito se vive mais de uma vez? Ou por ser tão perfeito ele só é mesmo possível em sonhos? Viver e sonhar costumam estar mesmo embaralhados em sua mente. “Uma parte dela pesa, pondera (às vezes), outra parte delira (sempre)”. (Adaptado de Ferreira Gullar.)
A misteriosa dama tem mais interrogações que respostas. Ela também não é muito de procurar respostas, basta-lhe viver e, afinal, “navegar é preciso, viver não é preciso”, conforma-se com um outro poeta.

Stenio, com a colaboração de Tafnes.
Setembro de 2008.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

TENTANDO SOBREVIVER

EU NÃO TINHA A INTENÇÃO DE PUBLICAR ESTE TEXTO NO BLOG, MAS MUDEI DE IDEIA PORQUE ALGUNS ME PERGUNTARAM SOBRE A MINHA LONGA BRIGA COM A CAIXA ECONÔMICA, PARA O QUE ESTOU ESPERANDO (PEDRO PEDREIRO) UM FINAL FELIZ PARA OS PRÓXIMOS DIAS. COMO AINDA SOU MUITO ANSIOSO E ESSA ESPERA TEM SE ETERNIZADO, RESOLVI POSTAR AINDA SEM O FINAL.

Distintos Períodos de Escravidão

Certa vez minha psicoterapeuta mandou que eu escrevesse sobre um período que sempre eu falava como sendo o único na carreira profissional que tinha valido a pena, que o trabalho realmente tinha produzido algo. Não consegui, o tempo em referência foi muito curto, tanto que o batizei de Hiato Profissional, e o restante da vida tentou dominar o texto. Digo tentou porque acabei largando aquele estreito caminho e abracei outros que me pareceram mais largos. Em invectivas contra as guerras, exploração econômica e outras mazelas criadas por e para o homem, enfim, um texto bem depressivo, segundo um ou outro que teve a coragem e a paciência de ler.
Hoje, já decorrido quase um ano, volto ao tema tentando juntar os três períodos (ou separá-los, dependendo da ótica) que considero distintos nos 25 anos em que servi a um só e poderoso senhor: o dinheiro. A estes três segmentos de tempo, assim como D’Artagnan aos mosqueteiros, junto um quarto, anterior e extenso período de 23 anos em que o senhor era irmão bastardo, e tão ou mais poderoso que o outro: a fome. Como não escrevo com o propósito de agradar a alguém, até porque não sei se terei algum leitor, descreverei algumas passagens destes difíceis tempos sem o temor de ser novamente depressivo.
Nasci no meio da roça braba, sem assistência de qualquer espécie, de parto “natural”, que eu diria espontâneo, pois era feito pela própria parturiente. Aqui eu engulo uns cinco ou seis anos e só lembro da mudança para Fortaleza, e a relação entre os valores pagos aos que efetuaram a mesma. Para chegar à Capital, cerca de 70km, pagamos x cruzeiros e dali até o bairro onde passamos a morar pagamos uns 50% a mais, sendo a distância de 3km e percorrida em uma carroça.
Neste bairro passei a ser perseguido por uma faminta e grandiosa porca. Ela não podia me ver que disparava atrás, não lembro se chegou a me morder ou se só queria namorar. Tentando fugir da fome e da porca fui morar com uns parentes no semi-árido, que logo virou deserto durante três anos de seca. Com uns sete ou oito anos de idade abracei a primeira das muitas ruins profissões que tive – vendedor de água – quase lama, buscada a cerca de dois quilômetros e vendida por qualquer tostão já que os sedentos eram também famintos. Salvo pelo gongo do irmão Cocão, na época ainda José Chagas, sobraram-me de herança do período uma bela cicatriz de mordida de jumento e um olho cego que nem posso orgulhar-me, como Camões, de que tenha sido um mouro na guerra, já que foi um amigo e em uma inocente brincadeira de criança. Irrelevante dizer que chorei uns três dias com o olho furado e não lembro o quanto doeu a mordida. Ficaram os traumas, físicos e psicológicos. Da época me recordo ainda da alimentação que era quase ou todo dia um belo cardápio de feijão de corda, bem velho mas também bem temperado – com gorgulho. Vinha de quebra um outro tempero, Gesarol 33, um pesticida usado no feijão, que fedia tanto ou mais que o próprio gorgulho. Recentemente, quase 50 anos depois, fui a Fortaleza e vi o miserável do feijão, novinho, mas já todo furado, e comprei um quilo para mostrar pra meu filho, mas também na esperança que fosse comestível, pois parecia bem diferente do antigo. Não era.
Mais um Severino, retirante do sertão nordestino, que bem poderia ser confundido com o descrito por João Cabral em seu famoso poema, depois musicado e transformado em peça teatral por Chico Buarque. Benditos sejam os que conseguem ver ou transformar em beleza e arte tanta miséria.
Da escola, à qual já cheguei com 12 anos de idade, vale recordar a primeira prova. Na época era semestral e na divulgação dos resultados a professora lia os nomes dos que passavam, de trás pra frente. Eu comecei a suar frio com medo da surra por ser reprovado pois meu nome não aparecia, e quando já me resignara, tomo um susto – primeiro lugar. Era meio que superdotado de memória e não sabia, tudo que era dito durante o semestre, ou o que lia na véspera da prova, eu decorava. Posteriormente este dom foi se perdendo por conta do descuido e do álcool. O período D’artagnan ainda se arrastou por mais onze anos com algumas peripécias aqui e ali mas que não valem a pena ser narradas. Tempo de escravidão da fome mas que eu pensava ser livre. Africano, antes dos navios negreiros.
Sobrevivente, aos 23 anos passo em concurso da Caixa Econômica Federal e, todo eufórico, achei que ganhara a alforria, ou até, o que me parecia à época, um verdadeiro paraíso. Belo engano. Passei a ter o pão de cada dia, o que era um progresso e tanto, mas o navio negreiro, cheio de luzes e lantejoulas, me capturara. Passei a ser escravo dos relógios de pulso e de ponto, subserviente a todo tipo de ordem, muitas delas estúpidas, mas que deveriam ser aceitas pra não perder o já citado pão. Condenado a executar os repetitivos e neurotizantes serviços bancários por um longo tempo. E não nos iludamos, mudar de emprego muito dificilmente mudaria esta relação. Teria que mudar de lado, deixar de ser servo para ser o senhor, de dominado para dominador, o que também não me seduzia muito, apesar de, em meus sonhos eu imaginar ser o que hoje considero o pior destes senhores, o banqueiro. Não tinha talento, dinheiro, força ou imaginação para transformar o sonho, o que eu considerava impossível e talvez fosse mesmo, pelo menos para mim. Apesar de muitos alardearem que, em se querendo, nada é impossível, penso que é, pois as pessoas são limitadas, são bem poucos os super-homens que existem por aí, e estes ainda têm, a aparar suas asas, a criptonita verde. Eu não tenho os superpoderes mas tenho a criptonita que, de qualquer cor, me faz mal. Chama-se depressão e fixou moradia dentro da cachola; corre uma ação de despejo na justiça incomum, especializada em coisas da cuca, mas esta faz jus a fama que tem de lenta e me enrola há mais de quinze anos, mesmo com audiências semanais nas cortes e divãs de suas excelências, os analistas, psiquiatras e outros menos cotados curadores da mente.
Já no banco entrei para a faculdade e foram quatro anos e meio de muita correria. Tinha que fazer milagres, pois trabalhava oito horas durante o dia e as aulas eram no mesmo horário. Deste tempo carrego o dom da ubiquidade. Terminei extenuado, com o aprendizado muito reduzido e que, praticamente não me serviu de nada.
Tentando diminuir as frustrações do trabalho montei uma empresa que rapidamente progrediu e com isso me veio uma agradável surpresa: como eu não dependia mais do banco e quando me aborreciam eu os xingava, os chefetes não se metiam comigo, me largavam num canto qualquer com o serviço e eu o executava a contento. Foi o melhor período de minha vida, dentro e fora do serviço, pra ser mais radical eu diria que foi o único em que realmente vivi. Durou um pouco mais de dez anos e ruiu com a invasão dos turcos otomanos.
Falando de turcos e de chefetes tem uma estorinha rápida envolvendo os dois. No último local onde me largaram funcionavam dois setores e os senhores presidentes, além de muito chatos, não se bicavam. Um dia tinha um pessoal consertando o forro da sala e um destes mandachuvas subiu junto e foi fiscalizar o trabalho, mesmo não sendo na seção dele. O outro ficou embaixo rogando praga para o primeiro cair. E não é que caiu mesmo. Pra completar, como não terminaram o serviço, chamaram um vigilante pra trabalhar à noite e lá pela madrugada este acorda com um barulhão. Assustado, mandou bala pra tudo que é lado até acabar a munição, quando então se trancou numa sala e pediu reforço que tão logo chegou vasculhou tudo e como não viu ninguém, subiu no forro pra fazer a varredura completa. Parece que as pragas do turco (apelido do chato numero dois) ainda estavam em vigor, pois o reforço também caiu. Claro o dia, descobrimos que o invasor era uma pilha de caixas que, mal arrumadas, tinham caído e agora estavam todas baleadas. A realidade, às vezes, supera a ficção. Pastelão dirigido por Gugu Liberato - parêntesis fechado, voltemos ao original.
Assim como muitos dirigentes romanos não tinham aptidão pra ser imperadores eu também não tinha para ser empresário – caiu a Bastilha. Fali e entrei em um segundo período que só não era igual ao primeiro porque trazia intrínsecas as condições que me proporcionaram o terceiro, o Hiato. É que aqueles que se sentiram sem forças em relação a mim durante a minha curta vida de senhor/dono/patrão, viraram novamente He-Man e tinham a força. Por minha vez nem sempre lembrava que tinham revogado a Lei Áurea e aqui e ali brigava com meus capatazes e capitães do mato. Numa dessas fui mandado pro tronco. Estava há mais de 20 anos na parte administrativa, no apoio, na retaguarda (ah! este é o termo) e fui mandado pra linha de frente, pra guerra, para uma agência. O meu Vietnã chamava-se Agência Vila Rubim, escolhida a dedo por ser considerada a mais ruim de trabalhar, era o tronco de verdade.
Não deu outra, em pouco tempo pensei que tavam filmando dentro da agência. Guarda no chão, porrada na cabeça, revólver na nuca. Os dois últimos também sobraram pra mim que portava uma camisa bonita e fui confundido com o Gerente. Ao negar a função levei a porrada e foi a promoção mais rápida que vi na vida, foi mesmo na porrada. Desculpe-me fictício leitor, não pude furtar-me ao infame trocadilho.
Se a depressão vinha sendo contida sem muito esforço, com o choque ela rebelou-se e começou a dar trabalho. Passei a ter síndrome de pânico, tirei seguidas licenças pra tratamento de saúde, não podia ver a Agência, dormia mal ou não dormia. Virei morto-vivo para a empresa vagando em múltiplas seções internas, onde ninguém me queria, e aí os chefetes tinham razão. “A maior lição de vida é que, às vezes, até os tolos têm razão” (Winston Churchil). Fui parar no arquivo morto, certamente lá era o lugar adequado ao meu estado, posto que não existia o setor cemitério.
Ameaçado de voltar à bendita Agência, me aparece a oferta de ir para São Paulo e ainda receber um bom trocado (a estas alturas eu já estava falidão, até como pessoa física), e como não fizeram restrições a malucos ou mortos-vivos, aceitei na hora. Fui!!! “Era o começo do fim, ou era o fim” (Geraldo Azevedo). De lambuja, a grana me foi roubada por um empregado.
Na cidade que não pode parar me mandaram aprender com um paradão, lerdo mesmo, e eu na minha ansiedade, enlouqueci. O serviço era bem burocrático, muito normatizado, e eu não progredia, principalmente por não suportar os métodos do instrutor. Em três dias o gerente me chamou e disse que eu não estava produzindo e, após expor minhas razões ele disse que em meu lugar teria procurado o balcão ao lado e tentado fazer outras coisas. Eu respondi que foi exatamente isso que fiz mas dali pra frente resolvi aprender o serviço a mim designado, sozinho. E consegui! Passei a atender isoladamente e de forma bem satisfatória.
Em poucos dias o mesmo Gerente começa a fazer pressão para que vendêssemos uns micos que a Caixa inventara, no afã de equiparar-se aos lucrativos bancos privados. Todos os dias a bela secretária estagiária passava com uma lista anotando quem vendera ou não um papel podre. De tanto insucesso, ele, que assim não ganhava suas comissões, resolveu apelar para uma premiação extra pra quem vendesse mais. E o prêmio era em dias de folga, o que seduzia bastante pois quase todos os empregados eram “estrangeiros”, e passar um dia ou dois a mais com a família era muito tentador. Resolvi aderir, e utilizando a experiência adquirida em minha falecida empresa de vendas de carros, passei a empurrar nos clientes, seguros diversos, bilhetes de loteria, poupança premiada, previdência privada e até papel higiênico usado, se preciso fosse. Resultado: ganhei, em primeiro ou segundo lugar, todas as folgas, e junto, algumas inimizades que foram bem úteis em um futuro próximo.
Aqui começa o já citado Hiato Profissional. Trabalhando no setor de habitação e lidando com meu público favorito, os carentes, vi que a Empresa oferecia muitas formas de resolver as pendências existente, que também eram muitas. Especializei-me nestas pendências, li bastante sobre o que era permitido ou não e passei a resolvê-las melhor que os outros, chegando a gerar filas exclusivas para o meu atendimento, o que acirrava novamente o ciúme e as birras de alguns colegas que não conseguiam fazer igual. Reclamações com a nova Gerente, que me chamou a atenção, e eu, achando que estava certo e já em estado eufórico/depressivo, nem liguei. Finalmente estava trabalhando e produzindo de verdade. De tão eufórico, utilizei todas as normas e quebrei algumas para resolver as coisas em favor de meu público. No item quebra de normas cometi uma grave e estou pagando até hoje. Os recém-adquiridos inimigos montaram em mim. C’est fini. Foi mesmo, fui demitido, depois aposentado por invalidez já que a depressão só piorava, e como perdi minha aposentadoria complementar estou, não em total, mas em meia miséria. Pelo menos mudei de patrão, sou funcionário de Deus e dizem que ele cobra sim, mas só depois que o defunto é enterrado e aí, sabe, depressivo não liga muito pra isso não. Se Ele cobrar caro depois eu mando um e-mail explicando, para que outros não Lhe fiquem devendo.
Muita gente afirma: minha vida dá um livro. A minha não deu nem dará certamente; apenas estas poucas e insípidas páginas. A inveja que tenho hoje é de algo que me parece tão distante quanto o sonho de ser banqueiro, embora aparentemente mais fácil e bem mais estranho: um epitáfio. Do milionário americano Malcolm Forbes “enquanto estava vivo, viveu”.

Stenio, nos últimos dias, epa, de agosto, 2007.










domingo, 12 de outubro de 2014

A DANADA DA ROSA

ESTE, LAMENTAVELMENTE NÃO É MEU. É, COM TODA HONRA, PELO MENOS ATÉ AGORA, O ÚNICO DO BLOG QUE NÃO ESCREVI. E COMO GOSTARIA DE TÊ-LO FEITO. EXISTE TAMBÉM EM VERSÃO MUSICADA, BEM MENOR. DELICIEM-SE.

A Rosa
Chico Buarque/1979




Arrasa o meu projeto de vida
Querida, estrela do meu caminho
Espinho cravado em minha garganta
Garganta
A santa às vezes troca meu nome
E some

E some nas altas da madrugada
Coitada, trabalha de plantonista
Artista, é doida pela Portela
Ói ela
Ói ela, vestida de verde e rosa

A Rosa garante que é sempre minha
Quietinha, saiu pra comprar cigarro
Que sarro, trouxe umas coisas do Norte
Que sorte
Que sorte, voltou toda sorridente

Demente, inventa cada carícia
Egípcia, me encontra e me vira a cara
Odara, gravou meu nome na blusa
Abusa, me acusa
Revista os bolsos da calça

A falsa limpou a minha carteira
Maneira, pagou a nossa despesa
Beleza, na hora do bom me deixa, se queixa
A gueixa
Que coisa mais amorosa
A Rosa

Ah, Rosa, e o meu projeto de vida?
Bandida, cadê minha estrela guia
Vadia, me esquece na noite escura
Mas jura
Me jura que um dia volta pra casa

Arrasa o meu projeto de vida
Querida, estrela do meu caminho
Espinho cravado em minha garganta
Garganta
A santa às vezes me chama Alberto
Alberto

Decerto sonhou com alguma novela
Penélope, espera por mim bordando
Suando, ficou de cama com febre
Que febre
A lebre, como é que ela é tão fogosa
A Rosa

A Rosa jurou seu amor eterno
Meu terno ficou na tinturaria
Um dia me trouxe uma roupa justa
Me gusta, me gusta
Cismou de dançar um tango

Meu rango sumiu lá da geladeira
Caseira, seu molho é uma maravilha
Que filha, visita a família em Sampa
Às pampa, às pampa
Voltou toda descascada

A fada, acaba com a minha lira
A gira, esgota a minha laringe
Esfinge, devora a minha pessoa
À toa, a boa
Que coisa mais saborosa
A Rosa

Ah, Rosa, e o meu projeto de vida?
Bandida, cadê minha estrela guia?
Vadia, me esquece na noite escura
Mas jura
Me jura que um dia volta pra casa