sábado, 31 de dezembro de 2016

CORPO ORQUESTRA

ASSIM QUE VI ESTA MOÇA ME VEIO A LEMBRANÇA DO VIOLÃO E PENSEI NO POEMA ERÓTICO, QUE NÃO É MINHA PRAIA. MAS MESMO ASSIM RESOLVI FAZER.
A CENSURA ENLOUQUECEU!


Violão Erótico


A cintura fina, todo o corpo esbelto
Chamam-me ao lugar comum do violão
Mas me parece pouco, eu diria orquestra
Que sempre deveria tocar pra multidão.

E no teu palco divino eu queria ser maestro
Para com minhas dez batutas te reger inteira
Na flauta mágica soprar-te segredos obscenos
E na calda de Essenfelder fazer mil brincadeiras.

Nos violinos, Bethoven e Mozart trinariam
Cantos de um maravilhado Uirapuru
Que, acho, não mais cantou, abriu o bico
Ao ver o estonteante corpo/orquestra, nu.

A transversa olhou de lado e ficou muda
Na certeza de que a doce seria a preferida
Para entoar a música de embalar os sonhos
De quem, para o maestro, é quase toda a vida.

Para Érica, por quem dá até vontade de voltar a tocar.
Submetida, revista e aprovada, com cortes, pela censura. (Ana Paula.)
Dezembro de 2016.
P.S. O autor, não satisfeito com os cortes, buscou uma segunda opinião,
e desta vez foi censurado, in totum, por Milena Krisley. A emenda saiu pior que o soneto.
Ò minha bela musa, só tu poderás salvar-me!




quinta-feira, 21 de julho de 2016

LENTA REAÇÃO QUÍMICA

ALGUMAS COISAS SAEM EM CINCO MINUTOS, OUTRAS EM CINCO ANOS E AINDA OUTRAS, SIMPLESMENTE NÃO SAEM.

Um Copo de Amor

Em um momento de intensa sede pela vida
Ao sorver uma insípida, inodora e incolor H2O
Intensamente mergulhei junto com Arquimedes
Mas, senti a Química enganada em seus conceitos
Ou em meu corpo os delírios do deserto.

Pois tinha o líquido um suave olor de jasmins e rosas
As cores do arco-íris vistas por um poeta bêbado
O sabor de favos de mel que de tão doces
Tirariam a acidez de todo o Saara.
Fiquei a imaginar que estava louco.

Em meio a tantas e tão agradáveis sensações
Mas nem um pouco preocupado, e nem buscava
Para tal fato qualquer explicação.
Mas em um átimo de lucidez vem-me a resposta
A água tinha a química e a magia do teu co(r)po.

2007 a 2012.

P.S. Por um motivo que agora não lembro, perdi o
original deste poema e tentei refazê-lo, o que
normalmente consigo sem muita dificuldade, mas,
neste caso, me faltou uma palavra e, até acredito,
ainda não a encontrei. Eu a substituí por uma
que não me parece perfeita, e ainda assim só

cinco anos após as primeiras tentativas.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

DIETA DE URSO POLAR

COME MUITO PARA HIBERNAR

Vasculhando minhas "gavetas" encontrei este texto que foi o primeiro, dos cerca de trezentos que tenho escritos. Como falo nele , ficou hibernando durante dezesseis longos anos.

Comecei uma Dieta

19/01/1991(?) – Não sei que data é essa pois o manuscrito que estou copiando ficou perdido por um longo tempo e a data não é compatível com minhas lembranças. Por elas eu teria escrito isto em 1998, mas aí o mês também não corresponde ao que vivi no período, mas onde está o diabo dessa dieta que não começa? Ah! Tá bom, vamos começa-la assim: comi uma pizza e é uma mesmo, não me refiro a alguns pedacinhos, não. Você ri? É verdade – segunda-feira, dia tradicional de começar qualquer coisa, especialmente dieta - e eu comecei assim e ora, vejam bem, não é regime de engorda, deveria ser o contrário mas, eu garanto que se atingir um mínimo do objetivo, devo ficar rico e famoso como ficou a ex-quaseprimeira dama, Tereza Collor. Mas deixemos as tolas divagações e voltemos à história, mas que história? Até agora só saiu o começo de nada, mais começo e mais nada, um verdadeiro saco, não? Então vamos acabar com essa merda, e dar descarga. Peraí gente, vamos dar descarga sim, mas descarga real pois tô escrevendo em cima do vazo já que a bruta da pizza e minha baita deseducação alimentar me proporcionaram uma tremenda diarreia. Botei a moleca toda pra fora e lá se foi também para o vaso a carreira de um ex-futuro famoso regimista, juntamente com a do escritor que só conseguiu escrever 16 linhas, e ainda curtas, pois, como já citado, são manuscritas. Aqui um pequeno esclarecimento: depois de também 16 anos (provavelmente), e já no teclado, é que as linhas esticaram um pouco mais.
20/01/1997(?) – Mais uma data aparentemente fantasma ou pelo menos em parte, é mesmo, considerando-se que ainda é dia dezenove. Então porque registrei dia 20? É que sei que amanhã não terei a mesma disposição (leia-se, preguiça mesmo) para escrever posto que levei 47 anos para começar (aqui a referência nos remete para 1998), então já faço o dia seguinte. Olha, e com essa minha vidinha de merda (vida diarreia?), tão rotineira e previsível, se não fosse a já acima (des)qualificada preguiça, eu poderia escrever os próximos 47 a não ser que meu bom Deus, no qual eu só acredito um titiquinho de nada, e ainda por medo, me deixasse morrer nesse pequeno período, o que não acredito mas se ocorrer, pelo menos houve uma surpresa, algo diferente a me acontecer já que, pra quem não sabe, eu nunca morri, pelo menos que eu me lembre.
Mas, porra, esse negócio só tem começo? Cadê a história do dia vinte? Calma leitor, tome seu comprimidinho que eu já tomei o meu, e em dose dupla. Mesmo assim vamos ao famoso dia 20, que como este texto, nem começou, ou um só começou e o outro não (só não sei quem é quem).
Diabos, agora no plural, porque este dia 20 não sai? Acho que são traumas, porque este é o dia do suplício, do pagamento (de quem?). Sou bancário e bastante endividado e este é o dia de receber, digo, de pagar. Bolas, já nem sei. Dizem que me pagam e eu digo que pago aos outros, mas como na antiga URSS, estamos ambos fingindo. Porra de dia 20 chato também, dá pra passar logo pro outro mês, ou ano? Quem sabe foi por isso que ocorreu toda a confusão das datas.

Obs. Este texto me parece sem maior valor literário, mas eu quis salvá-lo porque foi o primeiro que escrevi e numa época de crise financeira e depressiva, além de nem me passar pela cabeça que posteriormente eu viesse mesmo a escrever.
Arrumado em 05 de setembro de 2013 (esta sim, data real).
P.S. A propósito de confusão de datas, certa vez escrevi um texto com o título “O Fora do Eixo” e inconscientemente pus a data de 20 anos atrás. Foi publicado num site e como falava de coisas acontecidas bem mais recentemente, o editor achou por bem esclarecer alguma coisa, e nisso falou que eu pusera a data de propósito, para combinar com o título e outras coisas meio malucas ditas ao longo do escrito. Deixei o dito pelo não dito. Ou seria o não dito pelo dito? Sei lá, deve ser também confusão de datas, pois o Dito era um moleque que conheci quando também moleque.
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quarta-feira, 7 de outubro de 2015

BONS MENINOS

DURANTE OS VINTE E CINCO ANOS QUE TRABALHEI NO BANCO TIVE BONS COLEGAS E ALGUNS EXCELENTES CHEFES, MAS TAMBÉM TIVE ESTES.

Babacas e Chatos

Será que eram mesmo necessários os dois nomes? Deve ser só porque são pessoas diferentes ou uma só palavra é pouco pra definir as peças.
Na rua onde moro quase toda semana passa um bandido (pois só pode ser), com a moto superpotente fazendo um barulho insuportável. Eu sempre falo que ele tem doutorado em babaquice e só não dou uns berros, que certamente ele não ouviria, porque sou por demais medroso e ainda porque “dou um boi pra não entrar em briga, e uma boiada para não sair”.
Tenho um amigo cego que é meu instrutor de xadrez (e por aí avaliem o quanto eu enxergo). Bom, mas o fato é que caí na bobagem de falar pra ele que minha esposa é perita em tolerar chatos, e está muito claro que chato são os outros, não eu. Bom novamente, tá quase bombom de tanto bom, ele falou que vai trazer a namorada aqui pra ela fazer um curso completo de como tolerar chato, pois está pensando em se casar com ela. Este deve ser o bacharelado e eu que trabalhei 25 anos em um serviço muito chato e com vários chefes idem, lembrei de alguns, cujas esposas bem podiam dar os cursos de mestrado e doutorado pra menina, na remota hipótese de o que ela aprender aqui ser insuficiente.
Algumas destas professoras estão em um nível altíssimo de conhecimento da matéria, e assim eu corro um sério risco de ser injusto ao nomear uma delas para o mestrado.
Vou me arriscar com a Regina. Esposa do Aragão há cinqueeeenta anos, ela não se rebelou diretamente, mas arriou, psicologicamente falando. O cara é extremamente difícil, sempre com o mesmo papo e com uma insegurança que, acho, fez ela não larga-lo quando ainda era tempo. Esta com certeza tem doutorado: em anjologia.
Ubirajara, ou como é mais conhecido, o Bira, perdoem-me, mas este tem que ir pro final, pois é unanimidade em chatice.
O Mário, que já citei em uma crônica, sabe tudo, sempre tá certo, e reclama que nem bode embarcado, além do papo pegajoso e sem graça. Pois pois, depois de fugir dele durante uns quinze anos, encontrei-o em um ponto de ônibus, e nem o meu nem o dele chegaram antes da eternidade. Após um longo e tenebroso inverno, vejo ele correr e balançar os braços que nem o boneco da Shell, na avenida vizinha à que estávamos. Em um primeiro momento me espantei e até pensei que ele estivesse tentando fazer um bem pra humanidade, se suicidando. Mas logo vi que o cara não tem nada de “o cara” e lá estava o motorista do ônibus dando ré e voltando à avenida principal para levar a(o) mala. Tentou escapar fingindo ter errado o caminho, mas não é nada fácil se livrar de gente tão chata.
Os turcos Almir e Rubens, e vou por os dois juntos pra ver se valem a frase, eram subchefes e não se bicavam nem um pouco. Rubens assumiu a chefia por uns cinco dias e no primeiro cortou o meu ponto. Já o Almir, ameaça quase perene de assumir em definitivo a chefia, fez com que o Leonardo, único funcionário do Setor, andasse com o pedido de aposentadoria antecipada, devidamente datilografado, no bolso da calça.
Seu Alexandre Walter,veio de fora pra assumir a Gerência Regional da Caixa no ES. Soube, não sei por quem, quais eram as pessoas mais antipáticas da Filial e nomeou-os assessores, e lá estávamos nós com mais dois Rubens para odiar. O chefe deles, dada a função que tinha, bem que podia acumular com a de Chefe Geral dos Chatos. Os três já morreram, deve ter sido de praga.
E finalmente chegamos no Bira. Bira, Bira, Bira! Este merece uma estátua, e creio que só não fizeram porque ele já é um monumento: à chatice. Quando ele trabalhava, talvez porque eu não trabalhava diretamente com ele, não o achava tão chato. Foi só ele se aposentar que virou unanimidade. Pra começar todo ou quase todo dia ele ia na Caixa. Começou a reclamar (penso que o faz até hoje) que não recebia o tiquet alimentação, e tava sempre na Seção de Protocolo para reclamar por escrito. Numa dessas um colega falou que não queria aposentar e ficar como ele, Bira, todo dia batendo ponto. Ele tava fazendo o que mais sabe, no banheiro, e imediatamente cortou a seção pela metade, vestiu uma boa carapuça e foi à chefia. Fazer o que? Reclamar, é claro. Ele tem uma assessora jurídica, exclusiva para reclamações. Bom (de novo), é melhor a gente parar por aqui, né? Apesar de ainda ter o voto que ele votou NÃO, e ainda tirou foto para comprovar, como se preciso fosse! E se for relacionar o que uma meia dúzia de pessoas conhece, vai dar um livro. Só dele!
Setembro de 2015.

terça-feira, 14 de abril de 2015

TRAUMAS

VEZ OU OUTRA A PSICÓLOGA COM A QUAL ME CONSULTO FALA QUE ESCREVER SOBRE ELES AJUDA NA TERAPIA. ENTÃO TAÍ, VOCÊS,LEITORES, SERÃO TAMBÉM MEUS CURADORES DA MENTE.


A Boneca Aleijada
Há poucos dias li uma crônica de Elizabeth Martins, em que ela fala de presentes ganhos na infância e guardados até a vida adulta, ou mesmo até a morte. Ela diz inicialmente que não se lembrava de nenhum, mas depois descobre que aos seis anos ganhou do pai uma coleção de livros. Eu me lembro de dois, ambos ganhos de professoras primárias; Um livro, também, e uma bola de borracha, mas só lembro o destino da bola porque, óbvio, furou e foi pro lixo. O Natal, que por coincidência também é a data do meu aniversário, nunca existiu na minha infância, apesar de a musiquinha infantil dizer que “seja rico, seja pobre, o velhinho sempre vem”. Na Bela Vista, bairro paupérrimo de Fortaleza, ele, se vinha, vinha disfarçado ou escondido, com medo de ser apedrejado pela grande maioria que não ganhava nada.
Já adulto li um livro, “O menino Descalço”, de Oswaldo Abraão, autor meu conhecido, que também teve uma infância assim, e, todos os anos, ele comprava presentes de Natal e doava a crianças carentes. Parabéns pra ele, porque da minha parte não tenho nenhum apreço pela data, continuo sem receber presentes (agora por opção), e, fora os presentes obrigatórios, para mãe, esposas (tive duas) ou filhos, só me lembro de ter dado um, através do “Papai Noel” Correios, e nem sei se pode ser chamado de “presente”, pois doei uma bolsa com material escolar.
Este preâmbulo todo foi só pra dizer que me emociono muito vendo uma criança sem brinquedos, ou que possui somente os que ela inventa ou faz, como eu, às vezes, fazia.
Hoje, sendo já aposentado, e não mais dirigindo, ando bastante a pé, e outro dia, em uma caminhada, vi uma boneca na calçada, e pensando nos que não tem nenhuma, fui lá e peguei o brinquedo. Achei que a boneca de pano estava apenas suja, mas depois descobri que lhe faltava um braço, além de ser toda desengonçada. Senti como se ela fosse uma criança pobre, filho feio (que não tem pai), e abandonada. Já não queria mais doar o brinquedo, seria meu, ainda que impróprio para maiores de 65 anos, e ainda, do sexo masculino. Eu queria que aquele brinquedo apagasse alguns dos traumas adquiridos por não ter quase nenhum na infância; e por falar em infância, além de trabalho, o que tive muito nela foram proibições e com todo este quadro é bem natural os mais de vinte anos de psicoterapia, que carrego nas costas e na cuca. Parece que vou ter mais muitas seções, pois se a psicóloga logo falou que eu escreveria este texto, minha bela nega, quase sempre paciente e compreensiva, me subtraiu o brinquedo, e me somou mais uma proibição. Megera! Ainda bem que pelo menos o trabalho, o outro dos meus três monstros da infância, não mais pratico.
P.S. Ainda da psicóloga, certa vez eu comentando sobre a capa do livro que escrevi, falei que uma mulher era poetisa e dava as costas para as maldades do mundo; enquanto a outra era a guerreira, mãe do mundo, e defendia sua prole com muito vigor físico e força mental, como o faz quase toda mãe. Ela me fez um baita elogio: disse que a soma das duas era eu! Agora eu fico pensando se a boneca aleijada não era também eu. O eu dos meus traumas de uma vida toda, pois não os tive só na infância. Amanhã vou lá, descarregar um ou mais deles nos ouvidos da minha bela ouvinte/conselheira.
Março de 2015.

sábado, 24 de janeiro de 2015

AMOR FILIAL, AMOR PATERNO, AMOR, AMOR, AMOR.

MEU BICHINHO QUE SE FOI. COMO FALO NO TEXTO, GANHEI OUTRO, ATÉ MAIS INTERESSANTE QUE ELE, MAS A TRISTEZA PELA PERDA É GRANDE.

A Morte do Professor

Antes de mais nada um esclarecimento: ele foi batizado de Professor; não era um professor de verdade, embora, pelo menos a mim, tenha ensinado algumas coisas. Como ele era bem diferente dos demais, estava aqui e ali me fazendo escrever uns pequenos textos, ou citando-o, junto com a esposa Sofia, em alguns outros. Vou fazer uma interrupção pois faz poucas horas que ele morreu e eu já chorei um bocado e me encontro bastante triste. Voltei pouco tempo depois porque lembrei-me que nunca tinha chorado diante da morte, e creio que deve-se ao fato de esta ser inesperada. As outras pelas quais passei foram de pessoas idosas, ou foram lentas e esperadas (por doença) ou ainda, até desejadas, no caso, para evitar mais sofrimento. Meu Professorzinho (como o pai, João Vitor, e a avó, Ana Paula chamavam) morreu de complicações advindas de um acidente.
Ele e Sofia formavam um belo casal de calopsitas e tiveram mais de trinta filhos, que por não podermos criar, vendemos ou doamos, mas o interessante é que há poucos dias ganhamos um filhote superespecial: canta, conversa, dá beijos na boca e ainda estalados. Muito carinhoso, se deixar ele passa o dia inteiro pendurado no ombro. Também muito novo, e como não é filho foi logo passando a conversa na Sofia, e ganhando a inimizade do Professor, que sempre foi super apaixonado e ciumento.
Há uma semana minha mulher chegou em casa meio aborrecida e cismou que a dita cuja estava suja. Mandou vassoura e pano pra tudo que é lado e abriu um pouco mais uma das janelas, além de destravar e depois não travar de forma correta, uma das portas. Em pouco tempo deu um vento mais forte e foi aquele estrondo da porta fechando. Eu e Professor nos assustamos e, eu fiquei com vontade, mas ele sumiu mesmo. Procuramos por todo a casa e eu até rodei por diversos quarteirões em busca dele sem sucesso. Perguntamos a vários conhecidos e pedimos para que perguntassem aos seus conhecidos mas não tivemos nenhuma resposta. Passamos a admitir que o tínhamos perdido, mas um dia e meio depois ele me aparece semi-moribundo. Tinha passado o tempo todo atrás de uma porta, sem dar um pio sequer, logo ele que atazanava nossos ouvidos quando algo não estava ao seu gosto. Não entendemos nada. Passamos a lhe dar soro caseiro no bico e ele parecia que estava reagindo, mas uns dois dias depois, como ele não comia sólidos, minha mulher consultou uma veterinária, que mandou dar-lhe papa apropriada para passarinhos. Ele comeu um pouco e não resistiu, umas duas horas depois papocou.
Como eu sempre falo ou penso que sou bom para terminar textos, aqui vai o que me levou a escrever este. Logo que ele voltou do túmulo, o Nem, nosso filhote adotado, aborrecido porque achava que já tinha ganhado a viúva, começou a brigar, e muito, com ele, Professor. Tínhamos que separá-los a toda hora pois o Professor, debilitado, não tinha como se defender. Ocorre que umas doze horas antes de falecer, eu presenciei uma cena inusitada do Professor: ele chilreou alguma coisa, encostou no mais novo e deu-lhe um beijo. E o outro não o recebeu a bicadas, ao contrário, retribuiu o carinho, num gesto que eu achei lindo, da parte dos dois, e que me parecia, naquela hora, um pedido de desculpas e de amizade aceito. Posso estar “viajando” mas o que me fez mais chorar foi que depois aquele gesto me pareceu muito mais um pedido para que o moleque cuidasse bem da viúva e dos quatro recém-nascidos, que ainda se encontram no ninho, e comem no bico. Ele aceitou e está cumprindo a promessa. Deve ter menos de um ano, mas como menino prodígio que é, já alimenta os filhotes.
23/01/2015.

domingo, 21 de dezembro de 2014

DAMA (DONA) DA NOITE

UM TEXTO MAIS LONGO E ÚNICO MEU DE FICÇÃO. DIZEM QUE É UM CONTO.

Brilhante Dama

Aos primeiros alvores matinais ela rola na cama, lânguida e relaxada como se tivera uma linda noite de repousante sono, velado por querubins, após ter feito amor por longo tempo, mas não sabe se também com um anjo ou com o próprio deus. Grego. Inspirada talvez por estas divindades decide que será bem especial o belo dia anunciado pela réstia de sol que teima em se esgueirar por entre o cetim do cortinado. Será um dia completo e narcisistamente só seu. Completo sim, de sonhos, desejos, paixões, loucuras, poesias. Delibando-se previamente nas iguarias a ser vividas, alonga todo seu retilíneo corpo e calmamente deixa o leito, imaginando se ele a servirá melhor ainda, naquele mesmo dia. A intrusa réstia de sol já espalha sua claridade e com um leve ardor circula pelo belo corpo, ainda semidespido, e lhe anuncia o bom dia do astrorrei.
Hora da primeira refeição que já se encontra à mesa e nada fica a dever aos Palaces de Paris ou Nova Iorque. É, o dia realmente promete! Cada porção de alimento que vai à boca é mastigada e saboreada longamente e com muito vagar, quase que num ritual zen, em que não existissem tempo, obrigações, relógio. Aliás, o dela quebrou há poucos dias e ela jurou, como se preciso fosse, que não usaria outro. Providencial.
Será que o sol já cumpriu sua rotineira tarefa (o sol, este sim, tem obrigações) de colorir e aquecer águas e areias? Caminhando umas poucas centenas de metros é possível fiscalizar se o trabalho está sendo bem executado. Tão logo chega à praia deserta, ri interiormente ao pensar que o fiscal de ponto da grandiosa estrela é o seu diminuto, branco e bem cuidado pé, que com uma boa dose de sensualidade toca a tépida areia e imediatamente uma ruidosa e ciumenta onda quebra à sua frente e lhe vem, reverenda e mansa, beijar o escultural e atrevido pé.
Espalha pela areia seus muitos apetrechos de mulher e fica em dúvida se seu exigente corpo quer logo a água ou mais sol. Na dúvida, opta pelos dois e mergulha com a elegância de uma campeã olímpica. Em pouco tempo sai da água e preguiçosamente estende-se na toalha para curtir e ser curtida pelo agradável calor.
Sua tarde será dedicada a reposição de forças para o que ela idealizou como o melhor de seu dia. Dormirá após o almoço.
E quando a noite finalmente abre seu manto iluminado por milhões de estrelas, seus olhos brilham como aquelas e maliciosamente ela decide que vai se vestir de noite, seu manto negro será de seda opaca e suas estrelas serão grãos da areia matutina agora transformados em vidro, por fustigante calor mas não mais do sol. Serão miçangas tão reluzentes como se fossem rubis. Ela vai ser a verdadeira dama da noite – nobre dama - tão nobre que suas miçangas mais coloridas parecem mesmo rubis, e as mais pálidas parecem estrelas de uma constelação longínqua, vistas na noite escura. E todos são dela, rubis, estrelas, noite, constelação, miçangas. Ela é a dona do mundo. Da lua não é, pois esta não veio hoje ao firmamento. Certamente não quis tirar uma fatia sequer do esplendor da brilhante dama, ou quem sabe ficou temerosa de que esta brilhasse mais que ela.
Com este sentimento circula sozinha por elegantes bares e boates da moda. Não sabe se procura algo, ou se só quer exibir-se. Beberica em cada um dos lugares e pela madrugada decide voltar, pois não quer ver o sol romper a aurora e decretar o fim de sua noite, posto que em sua imaginação não haverá um fim para este dia/noite que está e haverá de ser tão perfeito.
Um pouquinho alta, caminha pelas ruas e encontra um jovem poeta a recitar versos à noite e seus distantes astros. Parece que aquele jovem teve também seu dia especial e a chama com sua poesia para juntos participarem do supremo ápice – o ato sexual – e aí ela descobre o que ainda lhe faltava. Rapidamente modifica o seu plano solitário e juntos caminham em busca da alcova adrede preparada. Das preliminares ao gozo decorre um longo tempo, quando então dormem embevecidos em cansaço e êxtase. Ao acordar pela manhã, já não tão cedo e, provavelmente pelo adiantado da hora, não encontra ao seu lado o anjo do prazer que lhe fez companhia. Sente-se confusa, não sabe se viveu ou sonhou aquele dia. O sol parece se aperceber disso, pois logo vem acariciar o mesmo pé que lhe aprovou o trabalho. Uma suave brisa sussurra ao seu ouvido: ainda que tenha sido um sonho, ele hoje pode ser realidade. E a dama, despindo-se da lingerie, também negra, começa a pensar em fazer ou sonhar tudo de novo, mas será que um dia tão perfeito se vive mais de uma vez? Ou por ser tão perfeito ele só é mesmo possível em sonhos? Viver e sonhar costumam estar mesmo embaralhados em sua mente. “Uma parte dela pesa, pondera (às vezes), outra parte delira (sempre)”. (Adaptado de Ferreira Gullar.)
A misteriosa dama tem mais interrogações que respostas. Ela também não é muito de procurar respostas, basta-lhe viver e, afinal, “navegar é preciso, viver não é preciso”, conforma-se com um outro poeta.

Stenio, com a colaboração de Tafnes.
Setembro de 2008.